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Prefeito de cidade cearense, médico cometia abusos sexuais e filmava os pacientes

Reportagem teve acesso a novas gravações feitas por José Hilson de Paiva, prefeito de Uruburetama, durante consultas em duas cidades.


Da Redação

Do Mais Goiás | Em: 15/07/2019 às 11:31:02


Além de ginecologista conceituado, apelidado de “Mão Santa”, Hilson de Paiva foi prefeito de Uruburetama em 1989, vice-prefeito em 2012 e eleito para o atual mandato com 76% dos votos
Além de ginecologista conceituado, apelidado de “Mão Santa”, Hilson de Paiva foi prefeito de Uruburetama em 1989, vice-prefeito em 2012 e eleito para o atual mandato com 76% dos votos

O programa Fantástico, da TV Globo, divulgou neste domingo (14) reportagem sobre uma série de abusos sexuais que teriam sido cometidos por um ginecologista e clínico-geral ao longo de 32 anos. Ao menos 63 vídeos mostram José Hilson de Paiva, 70 anos, que também é prefeito da cidade de Uruburetama, no interior do Ceará, abusando de pacientes em consultas — alguns vídeos também foram gravados em atendimentos no município de Cruz.

A reportagem encontrou 11 mulheres que disseram ter sido vítimas do médico, em casos de abusos que teriam ocorrido entre 1986 e 2018. Uma delas afirmou que começou a ser abusada aos 14 anos e voltava a consultar com o ginecologista pois ele era o único especialista do município.

Em 46 gravações, José Hilson realiza atendimentos invasivos e com clara conotação sexual. Um dos vídeos mostra, inclusive, imagens em VHS, o que deixa claro o quanto a prática era antiga. Em muitos casos, os abusos aconteciam sem que a paciente sequer percebesse a violência.  Nas filmagens, o médico chama as vítimas de “bebê” enquanto comete os abusos.

Em Uruburetama, o prefeito filmou mulheres no consultório particular dele, anexo à casa onde mora. Também gravou pacientes em atendimentos nos quartos da própria residência. Já em Cruz, onde trabalhou como clínico e cirurgião geral, entre 2007 e 2013, filmou os abusos no Centro de Saúde do município. Como procedimento padrão, José Hilson costuma pedir às pacientes para ficarem nuas.

“Quando entrei, mandou tirar a roupa, fiquei nua”, relata outra vítima. “Eu falava que tinha vergonha e ele dizia ‘que besteira, eu sou médico”, conta outra mulher abusada. Nos vídeos, ele falava frases como “tire tudo por causa da sudorese, deixe de frescura”.

Ao analisar as imagens — gravadas pelo próprio José Hilton —, representantes da Associação Médica Brasileira afirmam que os procedimentos verificados nas filmagens não são adotados em nenhum momento no trabalho médico e classificam como crime as ações praticadas pelo ginecologista.

Ao ser procurado pela reportagem da TV Globo, o prefeito afirmou que “nunca fez nada forçado” e que a ação é “uma jogada da oposição” que quer derrubá-lo. Ele confirmou, no entanto, que houve relações sexuais, mas negou a realização em consultório.

O advogado do ginecologista afirmou em nota que ainda não teve conhecimento dos vídeos e que aguarda as mídias para uma manifestação mais concreta sobre o caso. A defesa disse ainda que irá ao Ministério Público checar a veracidade dos fatos.

Presidente da Câmara de Uruburetama convoca sessão para avaliar afastamento de prefeito

A Câmara de Vereadores de Uruburetama deve se reunir nesta segunda-feira (15), em sessão extraordinária, para avaliar o início do processo de afastamento do prefeito municipal, José Hilson Paiva (PCdoB). A sessão está marcada para as 16h.

A presidente da Câmara, vereadora Maria Stela Gomes Rocha, mais conhecida como “Tete”, disse ter ficado em choque ao se deparar com os vídeos dos abusos, exibidos em reportagem veiculada pelo programa “Fantástico” deste domingo (14). Tete afirmaque entrou em contato com todos os 11 vereadores da Casa para realizar a sessão.

“É para ser feito o que a Lei e a Justiça versam sobre a má ação dele. Repudio totalmente (os atos do prefeito). Tem que ser apurado imediatamente. É caso para afastamento imediato”, destaca Tete.

De acordo com a presidente da Câmara, o primeiro passo para abrir o processo de afastamento seria constituir uma moção de repúdio contra os atos do prefeito assinada por todos os parlamentares.

No entanto, José Hilson teria mobilizado aliados para ficarem do seu lado durante um eventual processo de cassação do mandato.